O novo “Pacto com a Sociedade Civil”, lançado oficialmente pelo governo britânico, traz implicações importantes para igrejas lideradas por imigrantes e pequenas organizações de caridade que atuam diretamente com refugiados, requerentes de asilo, e trabalhadores imigrantes que buscam reconstruir suas vidas no Reino Unido.
Embora o documento seja amplo e tenha sido pensado para toda a sociedade civil, seus princípios de inclusão, valorização e parceria abrem novas oportunidades — e também novos desafios — para comunidades de fé e entidades pequenas, frequentemente invisibilizadas nas políticas públicas.
O que é o Pacto com a Sociedade Civil?
O Civil Society Covenant, ou “Pacto com a Sociedade Civil”, é um compromisso firmado pelo governo para estabelecer um relacionamento mais justo, transparente e cooperativo com organizações não-governamentais. Isso inclui igrejas, projetos sociais, empresas sociais, sindicatos e fundações filantrópicas.
O pacto reconhece o papel vital da sociedade civil na construção de políticas públicas, assegura o direito à independência e ao protesto pacífico, e promete abrir espaço para participação ativa de grupos locais, inclusive os de base religiosa e cultural.
Por que igrejas compostas por imigrantes devem prestar atenção?
As igrejas lideradas por imigrantes — como é o caso das igrejas brasileiras, nigerianas, ghanesas, filipinas, caribenhas, latinas e outras — exercem um papel social crucial nas periferias urbanas do Reino Unido. Para muitos recém-chegados, essas igrejas são as primeiras redes de acolhimento: ajudam com moradia, alimentação, tradução, documentação e suporte emocional.
No entanto, essas igrejas raramente são consultadas pelo governo, quase nunca recebem financiamento público, e muitas vezes enfrentam barreiras linguísticas, burocráticas ou culturais para se integrar a conselhos e fóruns locais.
O novo pacto promete reconhecer e valorizar essas comunidades de fé como atores legítimos da sociedade civil. Isso pode se traduzir, na prática, em:
- Inclusão em fóruns de planejamento de políticas locais (ex: imigração, saúde mental, habitação)
- Acesso facilitado a fundos públicos e editais voltados a ações sociais
- Participação direta no desenho de políticas migratórias e programas de integração
- Proteção ao direito de se expressar politicamente e defender suas comunidades sem medo de retaliação
O impacto nas pequenas charities que trabalham com imigrantes
As pequenas charities que oferecem cursos de inglês, apoio jurídico, assistência alimentar ou orientação emocional a migrantes têm sido fundamentais na resposta humanitária a crises recentes — como a guerra na Ucrânia, a situação em Gaza e a chegada de famílias da América Latina e África Ocidental.
No entanto, muitas dessas organizações funcionam com voluntariado limitado, dependem de doações esporádicas e não conseguem competir com grandes ONGs na hora de obter recursos. O novo pacto promete corrigir parte dessa desigualdade.
Impactos diretos para essas organizações incluem:
- Simplificação dos processos de contratação pública e financiamento
- Novos modelos de parcerias locais com autoridades municipais
- Representação em grupos de trabalho sobre imigração e direitos civis
- Incentivo à co-criação de políticas públicas com base no conhecimento local
Além disso, o governo prometeu revisar cláusulas de contratos públicos que antes proibiam organizações de criticar o Estado — algo que limitava seriamente a liberdade de denúncia das injustiças sofridas pelos migrantes.
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Migração como tema central
O pacto reconhece que muitas organizações religiosas e comunitárias atuam em territórios onde o Estado não chega — especialmente junto a imigrantes em situação de vulnerabilidade. Ao valorizar essas vozes, o governo parece reconhecer que não é possível falar de políticas públicas eficazes sem envolver quem está diretamente nas comunidades afetadas.
No contexto migratório, isso significa:
- Reforçar o papel das igrejas como centros de acolhimento e apoio cultural
- Proteger o direito das comunidades imigrantes de se organizar politicamente
- Garantir que decisões sobre imigração, integração e acolhimento não sejam tomadas apenas por tecnocratas, mas também por quem vive essas realidades todos os dias
Riscos e limitações
Apesar do otimismo, líderes comunitários pedem cautela. O pacto não garante automaticamente recursos nem muda leis migratórias. Também há receios de que, sem mecanismos de fiscalização robustos, as promessas fiquem no discurso.
Outro ponto de atenção é que comunidades de imigrantes nem sempre têm acesso às estruturas formais de representação, como conselhos municipais ou conferências políticas. Assim, é fundamental que:
- O governo crie canais bilíngues e culturalmente apropriados para consulta
- Haja financiamento para capacitação e estruturação institucional dessas igrejas e charities
- Seja promovido um esforço ativo para incluir comunidades negras, latinas, muçulmanas, asiáticas e africanas nas discussões nacionais
Um chamado à ação para as igrejas e comunidades de fé
Para as igrejas compostas por imigrantes, este é o momento de:
- Se organizar em redes com outras instituições religiosas e sociais
- Buscar acesso aos conselhos locais e às reuniões públicas
- Preparar-se para acessar editais, formalizar suas ações sociais e ampliar seu impacto
- Documentar e compartilhar suas boas práticas, mostrando seu valor estratégico à sociedade britânica
Conclusão
O Pacto com a Sociedade Civil representa uma janela de oportunidade única para que igrejas de imigrantes e pequenas organizações de caridade finalmente sejam ouvidas e integradas às decisões que afetam suas comunidades. O sucesso dessa iniciativa dependerá da capacidade do governo de colocar em prática os princípios que promete — e da capacidade da sociedade civil de se fortalecer, se articular e se fazer presente.
Se há um tempo para agir, esse tempo é agora.
Fonte: GOV.UK – Relatório de envolvimento com a sociedade civil