Em 30 de julho de 2025, a Charity Commission — o órgão regulador de organizações beneficentes na Inglaterra e País de Gales — informou ter emitido advertências oficiais contra duas mesquitas: a Central Oxford Mosque Society e a Mosque and Islamic Centre of Brent. Ambas foram apontadas por permitir a disseminação de mensagens consideradas “inflamatórias e divisivas” em meio ao conflito no Oriente Médio.
“Infelizmente, no caso destas duas instituições de caridade, os administradores não conseguiram implementar processos adequados e permitiram que os nomes e reputações das suas instituições de caridade fossem expostos a danos graves através de linguagem inflamatória e divisiva e, num caso, parecendo associar a instituição de caridade a uma organização proscrita.” — Stephen Roake, Diretor Assistente de Investigações e Conformidade da Charity Commission
Esse alerta amplia um debate urgente sobre os limites da liberdade religiosa e a responsabilidade de pastores, líderes e gestores de instituições religiosas, particularmente no que diz respeito ao conteúdo de suas mensagens, principalmente quando veiculadas publicamente através das redes sociais.
O caso em análise
Central Oxford Mosque Society
Segundo informações obtidas do site do govern britânico, em outubro e novembro de 2023, a mesquita teria compartilhado gráficos críticos à cobertura da mídia sobre a Palestina, cartuns que reforçavam narrativas polarizadoras e instruções sobre como agir em caso de prisão durante protestos. A instituição não conseguiu justificar como tais comunicações se inseriam em seus propósitos filantrópicos e operava sem uma política formal de redes sociais. O órgão regulador concluiu que houve má gestão e falha nos deveres dos trustees.
“Numa crise como a atual, esperava-se que as instituições beneficiárias ajudassem a unir, não avivar divisões.” (Stephen Roake, Diretor Assistente de Investigações e Conformidade da Charity Commission)
The Mosque and Islamic Centre of Brent
Conforme apurado pela Charity Commission, quatro entre cinco discursos promovidos entre novembro e dezembro de 2023 teriam incluído conteúdo que poderia ser interpretado como incentivo ao apoio ao Hamas (organização proscrita no Reino Unido) e desmotivação para participação em processos democráticos. Os responsáveis falharam em aplicar políticas de avaliação de risco para palestrantes e não apresentaram plano plausível de correção futura.
“Trazer indivíduos polarizadores como oradores, sem a devida diligência, é uma decisão que expõe a charity a riscos reputacionais e legais.” — Megan Manson, National Secular Society
Contexto histórico e institucional
O governo britânico informou que, desde o fim de 2023, foram abertas mais de 300 investigações relacionadas a organizações beneficentes vinculadas ao conflito israelense-palestino. Cerca de 100 receberam orientações estatutárias, e mais de 70 foram encaminhadas à polícia por possíveis crimes, num esforço de controle regulatório intensificado.
Paralelamente a isso, outras ações destacaram padrões similares em outras instituições — como a advertência ao Nottingham Islam Information Point pelo sermão de seu ex-presidente, Harun Holmes, que incluiu narrativas violentas e antijudaicas pouco contextualizadas.
Secundo o portal do National Secular Society (NSS), há ainda um outro caso, que envolveu a Abdullah Quilliam Society, alertada por discurso protagonizado por Haroon Hanif que conclamava a “guerra por Allah”, gerando preocupações quanto à incitação religiosa e antissemita.
Como consequência, já existem pessoas como Megan Manson, chefe de campanhas da National Secular Society, argumentando que tais incidentes expõem “falhas graves na governança e ausência de filtros adequados” e pedindo uma revisão da noção jurídica de “avançar a religião” como finalidade caritativa.
VAMOS TOCAR VIOLÃO?
Impacto social e político
Confiança pública e risco reputacional
Líderes religiosos e administradores de charities devem entender que o uso indevido de plataformas institucionais pode comprometer brutalmente a reputação da organização — impactando financiamentos, parcerias institucionais e a confiança das comunidades atendidas.
Polarização comunitária
A saudação a organizações proscritas ou estímulo ao boicote de participação democrática inconscientemente alimentam narrativas de exclusão e anti-integração, potencializando a radicalização de jovens e fomentando tensões intercomunitárias.
Equilíbrio entre liberdade e regulação
Para o jornal The Guardian, o debate sobre a liberdade de expressão em contextos religiosos é crescente. Relatórios como o da ex-comissária Sara Khan destacam que “a linguagem inflamável adotada por figuras públicas contribui para erosão da confiança democrática” e requer uma “reforma profunda” das políticas de combate ao extremismo, fora da abordagem exclusivamente contra-terrorista.
Recomendações e reflexões
Para pastores, líderes religiosos, trustees, e administradores de CICs:
- Implemente políticas claras de seleção de palestrantes, uso de redes sociais e gestão de risco em contextos de discurso público.
- Exija contextualização adequada de qualquer conteúdo sensível, religioso ou não, respeitando tanto a liberdade religiosa quanto os imperativos de segurança e coesão social.
- Fortaleça instrumentos de governança, com conselhos e trustees conscientes de suas responsabilidades legais sob o Charities Act 2011.
- Promova o diálogo dentro e fora de sua organização, como medida preventiva contra a polarização e em favor do fortalecimento de uma confiança mútua.
Conclusão
O alerta emitido pela Charity Commission, ao advertir duas mesquitas por uso de linguagem divisiva, não se trata apenas de uma sanção formal, mas de um sinal de advertência à comunidade beneficiária em geral e à Igreja Brasileira no Reino Unido em particular.
Em um momento global repleto de tensões, as lideranças religiosas encontram-se sob o escrutínio público e jurídico. Assim, a manutenção da legitimidade de organizações religiosas depende hoje não apenas de suas ações de caridade, mas também da integridade ética e da responsabilidade com o discurso que promovem.
A reflexão profunda e a ação institucional consciente são urgentes — tanto para preservar a credibilidade e manter um sentimento de segurança comunitária, tanto para reforçar ainda mais a confiança do público.
Deixe um comentário