A Charity Commission, órgão regulador de instituições de caridade na Inglaterra e no País de Gales, divulgou em 22 de julho de 2025 uma advertência oficial (“Official Warning”) à UK Friends of the Association for the Wellbeing of Israel’s Soldiers (UK‑AWIS), por ter publicado na sua plataforma digital um vídeo com conteúdo considerado “altamente perturbador”, supostamente mostrando um indivíduo atingido por uma munição. Embora a investigação tenha concluído que o vídeo não mostrava efetivamente uma morte, o conteúdo foi classificado como impróprio para uma entidade registrada no Reino Unido.
Contexto e histórico institucional
A UK‑AWIS, criada em 2000 com o objetivo de apoiar soldados israelenses ativos ou veteranos por meio de educação ou lazer, encontra-se sob investigação desde dezembro de 2023 por levantar fundos que eventualmente poderiam violar seus objetivos estatutários, em especial se considerado apoio logístico ao IDF segundo o portal Third Sector. Ainda segundo o portal, o regulador concluiu que não houve aplicação irregular dos recursos da organização, mas, ao mesmo tempo, identificou falhas graves na governança digital da entidade.
A comissão concluiu que os administradores terceirizaram completamente a gestão do site e redes sociais a um ex-executivo, sem revisão ou controle pelo conselho. Isso configurou uma falha clara no dever de diligência previsto em lei: “os trustees falharam em agir no melhor interesse da charity ou gerir seus recursos com responsabilidade”
O que diz a Charity Commission
Joshua Farbridge, chefe de conformidade do regulador, afirmou:
“Este caso demonstra a importância de possuir políticas robustas para redes sociais e realizar a devida vigilância. Tais salvaguardas poderiam ter prevenido o compartilhamento de conteúdo perturbador e inadequado.”
Ele também ressaltou que, embora delegações sejam aceitáveis, os trustees permanecem legalmente responsáveis por qualquer publicação ou comunicação institucional.
Outros casos recentes: padrão e diversidade de riscos
O episódio da UK‑AWIS não é isolado. Em junho de 2025, a entidade Palestinian Refugee Project, uma charity criada com a intenção de apoiar refugiados palestinos, particularmente no Líbano, também recebeu uma advertência e teve um trustee desqualificado por oito anos, por divulgação de conteúdo político divisivo e uso indevido das redes sociais sem uma política formal aprovada pelos outros administradores.
Outro caso, envolvendo o Abdullah Quilliam Society, também resultou em advertência à organização e a desqualificação de um dos trustees por três anos. O motivo foi a transmissão ao vivo de sermões incentivando o extremismo, novamente por falta de políticas claras de controle e verificação prévia. Segundo contido no site da Charity Commission, o regulador analisou o sermão e descobriu que continha linguagem como “a hora não começará até que os muçulmanos lutem contra os judeus e os muçulmanos os matem até que um judeu se esconda atrás de uma rocha ou de uma árvore”.
Segundo noticiado no portal Civil Society, em 11 de julho de 2025 a Comissão emitiu uma advertência formal ao Al‑Manar Centre Trust, em Cardiff, por ter compartilhado um vídeo contendo imagens de treinamento do Hamas e suposto apoio ao grupo terrorista. A investigação concluiu “misconduct and/or mismanagement”, e identificou que o único trustee responsável pelas redes sociais não assistiu ao vídeo antes de publicá-lo.
Contexto regulatório e jurídico
As normas do Fundraising Regulator e dos órgãos de autorregulação de publicidade (ASA/CAP) são claras: comunicações de marketing não devem causar medo ou angústia sem justificativa e jamais usar imagens chocantes apenas para atrair atenção. Se forem usadas, tais imagens devem vir acompanhadas de aviso apropriado.
Para charities registradas, a Charities Act 2011 exige que os trustees atuem de forma prudente e conforme os objetos da entidade. A falta de políticas de redes sociais, mensagens não revisadas e ausência de gestão coletiva são vistas como graves violações à confiança pública.
VAMOS TOCAR VIOLÃO?
Impacto social e comunitário
Para o público em geral, o caso reforça a preocupação com a responsabilidade institucional em comunicações públicas. Quebra de confiança e associação a imagens extremas podem gerar reações contrárias e boicotes.
Para comunidades religiosas, há um risco especialmente sensível: vídeos ou palestras que abordem conflitos no Oriente Médio podem ser interpretados como tom político, ideológico ou de apologia. A ausência de revisão ou o uso de conteúdos não produzidos pela própria entidade aumentam o perigo de mal-entendidos ou manipulação externa.
Para imigrantes, muitas vezes vinculados a essas organizações para apoio social e espiritual, a publicação de mensagens mal geridas pode gerar estigmas coletivos, diálogo conflituoso ou sentimento de exclusão.
Recomendações para melhores práticas
Com base nos casos analisados e nas diretrizes regulamentares, apresentamos recomendações a charities, igrejas e demais organizações:
- Implementação de uma política formal de redes sociais, incluindo procedimentos de aprovação, aviso prévio para conteúdo sensível, papéis e responsabilidades claras entre os trustees.
- Treinamento obrigatório para trustees sobre política digital, terrorismo, discurso de ódio e marketing no contexto legal do Reino Unido.
- Revisão periódica de todo material publicado anteriormente nas plataformas, com auditoria interna e registro de conformidade, cumprindo ordens da Charity Commission.
- Comunicação transparente com a comunidade, especialmente quando o conteúdo estiver relacionado a temas geográficos ou religiosos controversos, explicando intenções e evitando interpretações maliciosas.
Conclusão: um chamado para mudança institutional
O caso da UK‑AWIS – e os precedentes de Al‑Manar, Palestinian Refugee Project e Abdullah Quilliam Society – sublinha que o uso hoje dominante da internet e redes sociais exige governança digital à altura da reputação de instituições que dependem de apoio público. A confiança depositada por doadores, beneficiários e comunidades só se sustenta se houver estruturas de responsabilidade clara, revisão prévia de conteúdo e compromisso com os valores humanitários.
Para a comunidade geral, religiosa ou imigrante, o aprendizado é claro: ongãos sem governança sólida podem expor não só suas próprias reputações, mas também fragilizar as causas que representam. É hora de promover debates internos, investir em boas práticas e exigir transparência documental – não apenas como formalidade legal, mas como pilar da legitimidade ética e impacto social.
Impressionante como a sociedade atual quer enfiar goela abaixo seus conceitos e direitos e desrespeitar os direitos dos demais. Creio…
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