Uma recente publicação no portal Law & Religion UK trouxe à tona um novo posicionamento episcopal sobre a chamada “terapia de conversão”, reacendendo um debate que já se arrasta há anos na Igreja Anglicana e no espaço público britânico. Destaca-se uma tensão crescente entre lideranças espirituais, comunidade LGBTQ+, advogados e entidades religiosas quanto à fronteira confusa entre oração, acolhimento pastoral e práticas coercivas que, segundo a matéria, pode ferir direitos humanos.
Entenda o que é a Terapia de Conversão
A terapia de conversão — também conhecida como “Prática de Conversão” — refere-se a qualquer tentativa de alterar ou suprimir a orientação sexual ou identidade de gênero de uma pessoa. Segundo o jornal The Guardian, a conversão terapêutica designa práticas — psicológicas, médicas ou espirituais — com o objetivo de mudar ou suprimir a orientação sexual ou identidade de gênero de alguém. A versão espiritual incluiria exorcismos, orações de cura e direção pastoral que visam alterar o desejo ou autoexpressão.
Segundo informações da própria Igreja Anglicana, essa prática já teria sido amplamente desacreditada por conselhos médicos e profissionais de saúde mental no Reino Unido (como Royal College of Psychiatrists e NHS) tendo sido definida como “não apoiada por evidência, ineficaz, eticamente imprópria e potencialmente prejudicial”.
Uma matéria publicada no jornal The Times afirma que já tenham havido condenações legais no Reino Unido. A reportagem traz relatos dramáticos de vítimas que supostamente teriam sido envolvidas em práticas de exorcismos, isolamento, indução de culpa e depressão profunda. De acordo com a matéria, Matthew Drapper teria vencido uma ação civil, recebendo uma indenização “de 5 dígitos” (superior a £10 mil) da Igreja Anglicana em Sheffield, após ter sido submetido pela Igreja a um ritual de exorcismo que visava remover “demônios da homossexualidade”, o que teria sido classificado como uma forma de conversão terapêutica disfarçada.
Relação entre Terapia de Conversão e Oração
O jornal Church Times relata que, para muitos defensores da proibição legal, práticas disfarçadas de “oração para cura” podem facilmente se transformar em coerção espiritual: “se não for feita de forma explícita, mesmo a ‘oração gentil não coerciva’ pode ser usada para pressionar LGBTQ+ a se conformarem a padrões heteronormativos”. Segundo a matéria, alguns argumentos tratam certas formas de oração — como “pray the gay away” — como equivalentes à conversão terapêutica, quando há pressão implícita para mudança de identidade . Ainda segundo a matéria, a orientação da Igreja de Gales teria classificado essas orações coercivas como abusivas e traumáticas.
Por outro lado, para o portal Greater Love, lideranças anglicanas teriam reconhecido que “oração graciosa e não coercitiva” não é em si abusiva — ainda que reconheçam que as fronteiras entre oração pastoral e conversão forçada são tênues . Segundo o portal, a Câmara dos Bispos da Igreja da Inglaterra teria recomendado orações de bênção para casais do mesmo sexo.
Dificuldades da Igreja para banir a Terapia de Conversão
Apesar de o Sínodo Geral da Igreja Anglicana ter apoiado, desde 2017, uma moção para banir a terapia de conversão, segundo o portal The Church of England, definir os limites entre oração pastoral lícita e práticas abusivas segue sendo um desafio teológico e legal. De acordo com o site Them, parte do problema é a alegada “brecha religiosa” nas propostas legislativas do governo: líderes religiosos alegam que a proibição total poderia criminalizar apoio espiritual ou aconselhamento cristão tradicional.
O Bispo de Guildford afirmou no Parlamento que qualquer uso de coerção para alterar orientação ou identidade — inclusive espiritual — é “abuso de poder”, mas manifestou preocupações com o alcance indefinido do projeto de lei . Segundo o jornal Church Times, a Igreja Anglicana também lançou um estudo sobre quando a oração se torna coercitiva, complementando a consulta governamental . Esta divisão interna foi explicitada no comunicado de ministros evangélicos que pediram ao governo que preservasse espaços de oração como “apoio misericordioso”.
A oração coercitiva
A oração é uma prática fundamental da fé cristã, expressa como uma conversa com Deus. Para quem a recebe, a oração é entendida como um suporte espiritual além da expressão de cuidado pastoral. A oração é uma experiência voluntária, interior, pedida pela pessoa. Deve caminhar ao lado do respeito pela liberdade e autoestima do interlocutor. Para evitar coerção, pastores e líderes precisam garantir consentimento explícito, ausência de manipulação emocional e convite para acolhimento, sem imposição.
Por outro lado, quando a oração é instrumentalizada para negar a identidade de alguém, atribuindo culpa espiritual ou sugerindo que a saúde moral depende de conformar-se a determinados padrões, essa prática pode ser vista como “abuso espiritual”. Segundo o jornal The Times, “sobreviventes” a essa prática relataram que a experiência lhes causou traumas, isolamento e até pensamentos suicidas.
Para evitar-se que haja qualquer sentimento de coerção, é importante:
- Garantir consentimento, informado e liberdade para dizer “não”;
- Evitar afirmações de que a orientação seja “pecado inerente”;
- Não sugerir que a não conformidade impeça a salvação.
Segundo o jornal The Times, essas precauções foram realçadas em casos como o de Matthew Drapper, que sofreu trauma e abandono de fé após experiência coercitiva em exorcismo.
Para o portal Church Times, quando a oração impõe arrependimento, pesando culpa sobre o indivíduo ou se fundamentando no medo espiritual (como demônios e castigo eterno), ela se aproxima de abuso espiritual. Essa forma de oração pode destruir a autoestima, gerar vergonha e isolar o indivíduo que já se encontra em situação de vulnerabilidade emocional. Segundo o jornal The Guardian, há relatos recentes de missionários jovens que revelaram uso de confessionários forçados, ritualização e humilhação sobre sexualidade.
VAMOS TOCAR GUITARRA?
Orientação da Igreja sobre “Oração Coerciva” e Terapia de Conversão
O jornal The Guardian publicou matéria segundo a qual, o Sínodo Geral da Igreja Anglicana teria votado, ainda em 2017, que tais práticas “não têm lugar no mundo moderno”. Segundo a matéria, bispos como David Walker teriam declarado que orações destinadas a alterar a orientação sexual de alguém não são meras “orações gentis” e deveriam estar sujeitas à lei quando há desequilíbrio de poder ou controle emocional.
Já o portal The Church of England afirma que a Igreja concorda com a proibição de terapias coercitivas, mas declara que a orientação pastoral, ainda que não autorizada, não constitui abuso, desde que seja sensível e voluntária.
De acordo com o portal Church Times, algumas comissões e bispos na Inglaterra e país de Gales vêm trabalhando para definir e atualizar orientações sobre as questões de oração coercitiva e abuso espiritual. Segundo o portal, a Igreja do País de Gales teria afirmado que “qualquer prática que sugira que há algo inerentemente errado em ser LGBTQIA+ ou empurre para mudar a sexualidade é abusiva ou traumática”.
Porque reacender essa discussão?
A discussão ressurgiu no contexto de debate legislativo no Reino Unido sobre proibição ampla da terapia de conversão — incluindo identidade de gênero — com receio de que a lei alcance orações pastorais tradicionais. Além disso, a publicação recente do briefing episcopal reavivou dúvidas sobre como diferenciar práticas legítimas de formas abusivas disfarçadas de fé .
Segundo o jornal The Times, há ainda o primeiro caso legal de indenização no Reino Unido (Drapper) trazendo reflexos jurídicos diretos para igrejas que continuem abrindo mão do uso de políticas internas de salvaguardas éticas e legais. Ao mesmo tempo, uma matéria publicada no jornal The Herald indica que há temores de que a legislação possa acabar criminalizando não apenas o “trabalho pastoral tradicional de igrejas, mesquitas, sinagogas e templos”, mas até os próprios pais do indivíduo.
Diretrizes para pastores e líderes evangélicos
- Ouvir com cuidado, sem pressupostos doutrinais.
Ao receber pedidos de oração sobre sexualidade ou identidade, garantir escuta empática, consentimento e nunca apresentação de “mudança” como exigência espiritual. - Explicitar os limites da oração: liberdade, consentimento e ausência de julgamento.
Evite termos como “exorcismo”, ou “quebra de acordos demoníacos” relacionados à orientação sexual. Tais expressões são legal e eticamente arriscadas. - Oferecer acompanhamento pastoral, não pressão.
Oriente claramente que qualquer apoio pastoral nunca acarretará em qualquer tipo de exigência de conformidade ou renúncia de identidade. - Referenciar recursos profissionais (psicólogos, terapeutas), especialmente se houver sofrimento persistente.
No meio cristão, particularmente na Igreja Brasileira no Reino Unido, há pastores e líderes que também são excelentes profissionais como psicólogos e terapeutas e que saberão lidar com situações extremas de forma adequada.
Limitação por força de lei
Segundo o jornal The Guardian, o Reino Unido planeja criar uma legislação que criminalizará práticas coercitivas destinadas a mudar orientação ou identidade, mesmo em contextos religiosos. O foco está em comportamento com “intenção de mudar” sem consentimento livre. Leigos, pastores e líderes poderão ser responsabilizados se ultrapassarem os limites entre oração e coerção.
A legislação proposta se preocupa em não criminalizar orações não coercitivas, mas o risco de interpretações amplas existe. Bispos como o de Guildford alertam sobre “efeito de intimidação” legal sobre práticas religiosas inocentes .
“Nós não podemos arriscar consequências não intencionais para pais, professores, líderes religiosos ou para médicos que fornecem apoio crucial e legítimo a jovens que sofrem de angústia de gênero”. (Baroness Barran (Con, Women & Equalities)
Há um consenso possível?
Entre líderes cristãos, advogados e ativistas, há o consenso de que:
- Qualquer prática coerciva, seja médica, psicológica ou espiritual, deve ser banida. Essa hipótese é apoiada por boa parte do episcopado anglicano e grupos médicos.
- A liberdade religiosa deve ser preservada, mas não sobre o direito de causar dano.
- Deve-se reconhecer a validade da oração não coerciva quando for livremente solicitada e respeitosa do outro.
- A oração pastoral sensível e respeitosa deve continuar. Porém, qualquer forma de imposição espiritual, vergonha ou tentativa de mudança obrigatória deve ser evitada e repudiada.
Onde muitos divergem é quanto à delimitação. Até que ponto uma oração legítima pode chegar antes de ela ser julgada como prática intencional coerciva e tipificada como terapia de conversão?
Um apelo ao debate ético e pastoral
O recente resumo episcopal destaca que a linha entre oração pastoral e terapia de conversão pode ser tênue, e que uma lei mal redigida comprometeria práticas espirituais legítimas. Para pastores evangélicos, a urgência está em revisar práticas, assegurar consentimento, evitar coerção e adotar reflexões profundas sobre o que significa verdadeiramente ‘orar com amor’, não com controle.
Ao mesmo tempo, a comunidade LGBTQIA+ e a sociedade civil aguardam, à medida que o processo legislativo avança, que haja uma definição criteriosa e uma proteção efetiva daqueles em situação de vulnerabilidade.
É necessário que haja um amplo debate sobre este tema e que a Igreja como um todo se pronuncie para que se evite que apenas um pequenos número de pessoas tome decisões que podem ao longo do tempo alcançar largas proporções e gerar conflitos legais entre a Igreja e a sociedade em geral.
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